O Plano B

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O candidato da internet

por T. C. Soares em 16 de novembro de 2016, Comentários desativados em O candidato da internet

Imagem: gaming after 40

Bom, parece que o Trump ganhou mesmo.

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Uma referência meio comum nos fliperamas dos anos 80 era a fase da fábrica abandonada. Você andava com seu avatar por algum distrito industrial meio demolido e saia dando soco e voadora numas gangues, chutava uns tambores de combustível vazios, essas coisas.

A estética desse tipo de cenário tinha muito a ver com os filmes de ação da época. A distopia pós-industrial de obras como Robocop, ou Fuga de Nova Iorque, ou Mad Max. Esses filmes, e os fliperamas lançados depois deles, traziam nessa linguagem um tanto das pulsões que mexiam com as pessoas na vida real ali das décadas de 1970 e 1980. Nesse período, a economia global viveu uma reestruturação, com uma expansão do capital financeiro e reconfiguração do setor produtivo.

Com o aparecimento de novas arquiteturas de gerenciamento e de novas tecnologias, os anos 70 e 80 viram um redimensionamento da infraestrutura fabril e uma estagnação na absorção de trabalho. O que, na prática, resultava em fábricas abandonadas e demolidas, e em um monte de gente encarando um universo do trabalho em transição, instável, muito diferente dos “30 gloriosos”, do mundo mais ou menos de boa construído nas décadas seguintes à segunda guerra mundial.

Final Fight | Capcom | 1989

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Essa reconfiguração da economia global teve, em seu centro, Ronald Reagan e Margareth Thatcher. Alçados respectivamente à liderança de EUA e Inglaterra na virada dos 1970 para os 1980, Reagan (do Partido Republicano americano) e Thatcher (do Partido Conservador britânico) lideraram o bloco capitalista guerra fria adentro até a queda do muro de Berlim, em 89. Ali a utopia do livre mercado deu o drible derradeiro no sonho do socialismo real soviético

No geral, o plano de Reagan e Thatcher foi tirar o capitalismo financeiro da jaula e permitir que ele se expandisse com o mínimo de interferência dos governos, conectando mercados pelo mundo e sedimentando uma nova arquitetura econômica global. Enfim, globalização.

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As ideias que moviam o projeto de Reagan e Thatcher podem ser traçadas a um grupo multidisciplinar e internacional, uma rede que tinha como centro de gravidade, como grande elemento de elaboração e articulação, um economista austríaco chamado Friedrich Hayek.

Em 1944, quando lecionava na London School of Economics, Hayek publicou “O caminho para a servidão”. O livro, metade manifesto metade divulgação científica, foi sua tentativa de colaborar com o debate público num tempo em que o fascismo mobilizava resistências nos campos de batalha e no ringue das ideias. Como outros tantos intelectuais da época, Hayek se preocupava com o avanço do totalitarismo no tecido social do ocidente, e resolveu que aplicaria o corpo de sua pesquisa na elaboração de uma teoria geral do fascismo.

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Hayek era um dos expoentes da escola austríaca de pensamento econômico, e acreditava que a economia funcionaria melhor se não houvesse qualquer grande interferência externa. Para ele, o fascismo seria uma espécie de degeneração causada pela interferência das forças do governo no motor econômico. Essencialmente, o mercado seria, segundo Hayek, uma manifestação natural e neutra do conjunto social, e teria a capacidade de alocar, universalmente, informação e recursos da melhor maneira possível. Mais que isso: se deixado em paz, em pleno funcionamento autônomo, o mercado teria, em sua gigantesca capacidade de processamento de informação, a capacidade, também, de se autorregular.

O problema para Hayek era que, se submetido a interferências que forçassem seu funcionamento numa lógica diferente daquela de alocação “natural” de recursos, o mercado deixaria de se manifestar como tal, e se transformaria numa burocracia trespassada por relações de força e arbítrio. Enfim, se conformaria num maquinário fascista. Como exemplos, hayek cita a Itália e a Alemanha, e manda ali umas indiretas pra União Soviética (afinal, Stalin, àquela altura da guerra, era um aliado dos ingleses contra os alemães).

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“O caminho para a servidão” foi um fenômeno literário, e se tornou uma espécie de obra de introdução para o projeto de mundo elaborado em torno da ideia de livre mercado. O livro seria também o marco inicial de uma trajetória intelectual que levaria Hayek a se debruçar sobre áreas do conhecimento como a teoria da informação, a cibernética, a história das ideias, o direito, e as neurociências. Foi a partir da rede de contatos iniciada na publicação e divulgação da obra nos Estados Unidos que Hayek se aproximou do grupo da Escola de Chicago (para onde, logo em seguida, se transferiu), e deu o início, com a articulação de think tanks, à criação de espaços de elaboração e divulgação de seu projeto de uma nova sociedade baseada no livre mercado.

O projeto de Hayek, que recuperaria elementos da filosofia política presentes nas obras de autores liberais clássicos como Adam Smith e John Stuart Mill, propunha uma reelaboração do liberalismo britânico, com a construção de um novo mundo baseado na lógica do laissez faire. Na prática, sua viabilização passaria pelo estudo e adoção de novas plataformas científicas e tecnológicas, que tornariam possível a implementação de uma nova arquitetura política e social. Nesse mundo reinventado, seria mínima a participação das estruturas de Estado, e ficaria com o mercado o papel de organizador central da sociedade.

A lógica desse projeto (utópico a valer, na minha opinião), é que a liberdade individual seria superposta à noção de liberdade econômica, e que o grande processador de informações do mercado garantiria a todo mundo o direito de exercer plenamente sua autonomia individual. Dessa releitura do liberalismo britânico clássico (daí o termo “neoliberalismo”), surge boa parte da arquitetura do mundo em que a gente vive.

A maior parte, diria.

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A internet, a grande malha tecnológica, midiática e econômica que cobre o mundo hoje, deve muito, muito mesmo, à ideia desse grande mercado global/computador universal proposto por Hayek. A mesma grande rede infraestrutural por onde passam os dados que compõem os vídeos de gatinho do youtube servem ao processamento dos fluxos de reservas nacionais. Das hashtags do Masterchef a ataques especulativos, tudo é processado, em alguma camada, pelo grande processador de informação do mercado.

Acontece que, embora de fato rolem sacadas nas ideias de Hayek sobre a eficiência do conhecimento nesse mercado-computador-gigante, a parte toda lá da autorregulação parece um pouco mais complicada.

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Boa parte das décadas iniciais do século XX foram dedicadas à construção de mecanismos de defesa do tecido social contra as ideias e dinâmicas do fascismo. Coisas como o sistema de pesos e contrapesos da imprensa, a estrutura dos museus, ou os métodos narrativos do cinema devem muito aos esforços de pesquisadores das ciências sociais (em projetos acadêmicos, não raro, comissionados por governos). Do período entreguerras à guerra fria, esses grupos de pesquisa desenvolveram ideias e ferramentas que ajudassem a construir um discurso público que, ao mesmo tempo, garantisse a expressão autônoma, individual, e a elaboração de discursos coletivos mas não autoritários.

Desse empenho, surge boa parte da atual noção de debate público, e a noção meio generalizada a respeito da imprensa e dos meios culturais como mediadores essenciais, como um sistema a garantir que os debates da sociedade se mantenham dentro dos limites propostos pela democracia liberal. É aquela coisa do “dessa linha aqui a conversa não passa”.

Aí apareceu o Trump.

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Um efeito dessa onipresença da malha econômica/informacional do mercado na vida de hoje é que, junto, isso traz um tanto das ideias que colocaram a coisa em movimento em primeiro lugar. Tipo a confusão entre liberdade econômica e liberdade existencial; ou a crença na economia como um mecanismo a se autorregular.

Quando a noção de autonomia econômica se sobrepõe à noção de liberdade individual, todas as métricas da existência começam a se confundir com métricas da economia. Então seu celular passa a contar seus passos, porque eles serão um dado importante para sua avaliação médica e para o cálculo de seu seguro-saúde. Você precisa fazer check-in nos espaços pelos quais circula, porque a verificação de seus hábitos ajudará a conformar sua personalidade pública e te dará descontos. E você se engaja nas redes sociais, porque suas ideias serão processadas com as ideias de todo mundo, e os números de seus comentários e de suas propostas serão o certificado de sua participação no debate público.

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O ponto é que, como em outros episódios da história, esse deslocamento do debate público, deslizando dos espaços institucionalmente constituídos e indo para a malha do mercado/computador das redes sociais, não parece sinalizar a uma autorregulação, a um estado de equilíbrio. Ou, talvez, até chegue a um ponto de equilíbrio determinado por métricas e algoritmos, mas nada garante que esse equilíbrio seja o mesmo que, na primeira metade do século XX, as democracias do pós-guerra buscaram instituir como uma vacina contra o fascismo.

Numa dinâmica meio maluca de retroalimentação, as ideias de Trump foram galvanizadas pela malha informacional da internet, e informadas por novos elementos até então mantidos à margem de qualquer disputa cívica (tipo os nichos online dedicados a pautas da extrema direita), e absorvidas pelo grande mercado de ideias das redes sociais. E remixadas, processadas, metrificadas, e circuladas de novo até sua naturalização. E os espaços tradicionais, institucionalizados, de estabilização do conhecimento, pareceram totalmente descolados disso tudo. Pesquisas foram analisadas, e articulistas convocados, e todo mundo parece coçar a cabeça tentando entender como todos os prognósticos e checagens conseguiram se mostrar tão falhos após a abertura das urnas.

É verdade que projetos políticos agenciando preconceitos e temores nativistas não são uma invenção dos tempos contemporâneos. a história tem sua cota de experimentos autoritários nascidos da mobilização da raiva e da frustração borbulhando entre o pessoal deixado pra trás em transições econômicas. E, quando Trump apela à memória de tempos anteriores às fábricas destruídas pela expansão tecnofinanceira dos anos 80 (numa irônica — vinda de um presidenciável republicano — negação da era de ouro do reaganismo), ele certamente não está apenas encarnando uma manifestação das redes sociais. Mas ele não deixa de ser, ao mesmo tempo, o candidato que a internet construiu.

A escalada de Trump, da sua nomeação como candidato à presidência pelo Partido Republicano, até sua eleição, parece ter sido uma ruptura do debate público acordado no pós-guerra. Evento após evento, acadêmicos, analistas, jornalistas, todos pareciam completamente descolados da realidade a emergir das ideias e ações que moviam, internet adentro, a plataforma de Trump. Seus acenos a grupos da direita radical, a maneira completamente à vontade com que manipulava junto a seu eleitorado pulsões de nativismo, controle e força, são coisas que parecem ter adentrado o espaço de disputa de ideias, e então, dominado seu centro, sem conseguir mais do que incredulidade e negação nos espaços tradicionais de opinião pública. Como que recebidos com um misto de “não é possível” e “isso sumirá naturalmente”. Seria razoável acreditar que isso acabaria expulso alguma hora pelo sistema de pesos e contrapesos do debate público; mas parece que não estamos mais sob as regras do pós-guerra.

O discurso com mais likes é certamente o mais curtido. Mas isso não quer dizer muita coisa.