Se você é crítico do capitalismo de vigilância e das big techs, talvez você concorde com o que alguns teóricos chamam de “fim dos tempos”: um fascismo – agora sem autoridade visível – “adota a tecnologia para uma metafísica teleológica renovada dos meios para os fins”.
Pode soar apocalíptico. Estaríamos permeados por um fascismo que se mescla e se funde com os algoritmos. Isso seria parte de uma lógica contínua do colonialismo que conhecemos há muitos séculos, que justifica a exploração e a guerra.

Imagem gerada por IA generativa usando argumentos: apocalipse algoritmico, sul global e fascismoEsta anatomia foi feita no artigo “Recursive Apocalypse”, publicado no periódico Communication, Culture and Critique. O texto reúne importantes pesquisadores como Ezekiel Dixon-Román (Columbia-EUA), Luciana Parisi (Duke-EUA), Oana Pârvan (Inglaterra) e Tiziana Terranova (Nápoles-Itália). Eles argumentam que a computação é um braço tecnológico do “colonialismo cecursivo”, um padrão que recicla os projetos coloniais europeus por meio da abstração algorítmica.
Colonialismo Recursivo
O conceito de colonialismo cecursivo transcende a ideia de uma herança histórica linear. Para entender a IA atual, os autores nos guiam de volta às raízes europeias do racialismo.
A primeira articulação da branquitude como autoridade divina em oposição ao “outro” racializado seria uma espécie de código-fonte que a computação moderna continua a executar.
O colonialismo recursivo conecta esse modelo bioeconômico de extração à infraestrutura digital que sustenta o capitalismo racial.
A onipresença da IA não sinaliza apenas um salto técnico, mas marca a consolidação de um algoritmo que se auto-organiza para garantir que o futuro seja apenas uma atualização de um passado de dominação. O apocalipse tornou-se a ferramenta operacional de uma guerra contra certos povos, um ciclo em que a destruição gera valor e a tecnologia atua como o motor de uma ordem planetária que se alimenta da crise.
Estamos, na verdade, diante da forma recursiva do fascismo que retorna em nossa história planetária como um autômato fascista que comanda autocraticamente os genocídios dos despossuídos, o ataque às classes trabalhadoras e aos trabalhadores substitutos, o fechamento das fronteiras e a lógica carcerária do trabalho escravo. Esse autômato é movido pelo desejo de desmantelar o Estado democrático, promovendo as novas regras do capital monopolista e nacionalista.
Capitalismo racial computacional
A abstração matemática da computação não é neutra, ela é uma máscara que oculta o que os autores chamam de capitalismo racial computacional. A pureza do código depende da violência da carne.
No Sul Global, uma legião de usuários-trabalhadores precários sustenta, com cliques invisíveis, a ilusão de autonomia da IA consumida no Norte. É aí que também diversos povos são suprimidos por guerras comandadas por algoritmos. É pela racialização que pessoas são categorizadas e excluídas segundo sua cor e etnia.
A matriz comum do colonialismo recursivo tem raízes europeias. Daí deriva a intimidade entre o capitalismo racial, o colonialismo global e a universalidade da tecnologia. A violência absoluta foi o terreno fértil que originou todos os elementos e relações sem os quais o capitalismo não existiria: o sujeito generificado, capacitista e racializado, além da terra, da propriedade, da desapropriação e o valor.
Reside aqui um ponto crucial: a tecnoflesh (carne técnica) assombra a computação. O sistema tenta reduzir o corpo a dados, mas não consegue controlar a carne por completo. Assim como o mestre nunca pôde saber o que o escravizado realmente pensava, o “mestre” algorítmico contemporâneo não captura a totalidade do pensamento da carne que o sustenta.
O sistema também apresenta falhas
Se o colonialismo recursivo parece onipotente, sua própria base matemática revela o contrário. A onipotência algorítmica é assombrada por sua própria incompletude. Ao analisar o trabalho de Alan Turing, os autores lembram que o raciocínio computacional não se baseia em verdades universais, mas em um método indutivo de tentativa e erro.
Turing descobriu que há sempre algo “incomputável”, incomensurável, ou seja, que não pode ser simplificado ou previsto por um programa. Essa falha é o que permitiria a aprendizagem, por exemplo.
A prova matemática de Turing de que o sistema não pode conter tudo é a evidência de que os corpos – ou a “carne”, como adota o artigo – sempre podem fugir do controle total. A computação, portanto, carrega em si a semente da própria subversão.
Cosmocomputação como resistência
Diante da missão apocalíptica do Homem Prometeico, que se apresenta como universal e soberano, os autores propõem a cosmocomputação. Baseando-se na crítica de Sylvia Wynter, a cosmocomputação desafia a super-representação do homem liberal, darwiniano e malthusiano, que impõe sua cosmogonia como a única verdade técnica.
A cosmocomputação não busca uma solução messiânica ou um conserto do sistema. Pelo contrário, ela celebra a opacidade dos saberes dos subjugados e as práticas transcoletivas que ocorrem “por baixo” das infraestruturas oficiais. É uma tecnologia de resistência que admite múltiplas inteligências e recusa a separabilidade entre humano e máquina, entre abstrato e material. Opera como uma ética sem sujeito e uma abstração sem extração.
O diagnóstico é um chamado à desobediência ontológica. O apocalipse recursivo do capital tenta nos convencer de que não há alternativa ao Estado ou à soberania do mercado. A saída proposta é a desestatização e a não-soberania: a recusa deliberada em adotar os modelos de autoridade do colonizador para imaginar o futuro.
A cosmocomputação surge como uma ferramenta para desmantelar o autômato fascista, abrindo espaço para imaginações que não dependam da expropriação da carne. O objetivo final é subverter o algoritmo da destruição, trocando a soberania do capital pela radical liberdade do incomputável. O conceito de cosmocomputação, contudo, deve ser melhor trabalhado por dois autores do artigo em uma publicação futura. Há indicação de que mais detalhes serão dados no artigo “Cosmocomputation and Negpoethics”, a ser publicado na revista Social Text.
Para ler o artigo: https://doi.org/10.1093/ccc/tcaf027

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).









