A IA é frequentemente lembrada como capaz de resolver os problemas da crise climática, sempre com o apelo de que se pode ser mais eficiente para prever desastres e otimizar o consumo de energia. A ironia é que a própria IA polui, destrói e consome os recursos naturais de forma gigantesca. Mesmo assim, a narrativa de progresso e esperança persiste, especialmente entre os atores do Norte Global.
Um estudo publicado na revista acadêmica Big Data & Society investigou quem são os atores e quais são as verdadeiras intenções por trás da rede global “AI for Climate Action” ou #AI4Change, liderada por dois órgãos das Nações Unidas em 2023: o Technology Mechanism of the United Nations Framework Convention on Climate Change (UNFCCC) e o Climate Technology Center and Network (CTCN).

Imagem gerada por IA generativa usando argumentos: IA, intervenção, Sul GlobalO artigo “Networks, narratives and neocoloniality of AI for Climate Action”, publicado por Abdullah Hasan Safir, da Universidade de Cambridge, e Sanjay Sharma da Universidade de Warwick, ambas do Reino Unido, apresenta resultados que sugerem que a narrativa otimista da iniciativa esconde desequilíbrios de poder, interesses corporativos e uma nova forma de colonialismo digital. De quebra, repete o blablablá típico do mercado financeiro
Em primeiro lugar, a rede de “AI for Climate Action” é surpreendentemente unilateral. O estudo mapeou os principais atores envolvidos na iniciativa, dividindo-os em três categorias: organizações corporativas (como a PricewaterhouseCoopers), organizações sem fins lucrativos (como a Global Partnership on AI) e órgãos globais (como o Fórum Econômico Mundial).
A descoberta mais impactante é a de que, com uma única exceção (a Africa AI4D), nenhum dos atores identificados está geograficamente localizado no Sul Global. Essa ausência é gritante, segundo os autores, pois são exatamente os países do Sul Global os mais vulneráveis às mudanças climáticas e os que possuem menor capacidade de adaptação. Na prática, eles são posicionados como “consumidores ‘naturalizados'” de tecnologias projetadas e controladas por outros.
Há também claramente uma agenda capitalista, sob um verniz de sustentabilidade. Ao analisar os documentos mais influentes que circulam nessa rede, o estudo identificou narrativas dominantes, moldadas por palavras-chave que revelam uma agenda oculta. Eles utilizaram metodologias de rastreamento de palavras nos principais documentos e relatórios lançados pela iniciativa.
Por exemplo, um dos termos mais utilizados é “alavancar”, emprestado do mundo financeiro, com o significado de obter máximo de resultado com o mínimo de recursos. Nesse contexto, o objetivo é maximizar os lucros das empresas de tecnologia do Norte Global. A estratégia é uma forma de soft power com narrativa sedutora de que a tecnologia é vantajosa para todos, enquanto o hard power é a implementação dessas tecnologias nos mercados do Sul Global, sem barreiras ou regulações.
Outro é o termo recorrente é “inovação”, mencionado quase uma centena de vezes apenas no relatório de “Recomendações para Ação Governamental”. Historicamente, esse discurso “pró-inovação” é usado para promover a desregulamentação e o expansionismo capitalista, priorizando lucros em detrimento de benefícios sociais genuínos e marginalizando soluções locais.
Por fim, ao se referirem a “IA responsável”, trata-se de uma lavagem corporativa – “greenwashing” ou “social washing”. O conceito é usado para justificar o uso de IA por grandes corporações sem, contudo, abordar as injustiças fundamentais do sistema. Além disso, falha em especificar o que “responsável” realmente significa no contexto das nações do Sul Global.
Os autores afirmam que, ao invés de resolver, a “AI for Climate Action” pode aprofundar a injustiça climática. Ao conectar os pontos, o argumento reforça que a iniciativa exibe dinâmicas neocoloniais na medida que pode aprofundar o controle sobre o Sul Global por meios econômicos e políticos exercidos por atores do Norte, limitando o desenvolvimento e a autonomia local.
A própria crise climática, por si só, já é considerada um “problema colonial”, no qual o Sul Global sofre os piores impactos de um desastre causado sobretudo pelo Norte. Isso criaria o que os pesquisadores chamam de “dano em duas camadas”: a primeira é a própria crise em si; enquanto a segunda seria a “solução de IA” que, ao impor uma tecnologia controlada pelo Norte, adiciona mais uma camada de exploração e dependência.
Haveria um risco de usar ferramenta de IA para violar direitos humanos, como, por exemplo, sobre refugiados climáticos. Esse é um risco já abordado por outro estudo apresentado pelo OPlanoB: Ajuda humanitária como pilar da colonialidade de dados.
As conclusões do estudo alertam que a narrativa salvacionista de que a IA poderia ajudar o planeta ignora um ciclo vicioso: um pequeno clube de atores do Norte Global usa uma linguagem enganosa para promover seus interesses, implementando “soluções” que, em vez de ajudar, podem aprofundar a injustiça climática original e reforçar seu próprio poder.
As soluções tecnológicas nunca são neutras e sempre carregam as estruturas de poder de quem as cria. Abordar a IA e poder se enquadra no eixo de pesquisa “capitalismo de vigilância no Sul Global” do projeto OPlanoB (www.oplanob.com), que foca na análise da centralidade econômica e nas razões da reprodução do sucesso desse fenômeno nas margens do capitalismo.
Para ler o artigo: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/20539517251334095

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).









