A narrativa predominante sobre a expansão das gigantes tecnológicas chinesas é frequentemente pintada como uma marcha coordenada pelo Estado onde empresas como TikTok, Alibaba e Tencent atuariam como braços de Pequim na Rota da Seda digital.
No entanto, a realidade observada no Sudeste Asiático revela uma outra outra característica: enquanto a presença das plataformas chinesas cresce, governos e empreendedores do Sudeste Asiático refinam suas regulações. Países como Indonésia, Vietnã, Tailândia e Singapura transformaram-se em laboratórios de experimentação, equilibrando a atração de capital e inovação com a proteção da soberania digital e dos mercados domésticos.

Uma feira de tecnologia no Vietnã com diversos expositores chineses de ecommerce. Fonte: reprodução de https://www.vietnam.vn/Esse contexto é retratado no estudo intitulado “Double-zoning and Chinese digital transactions in Southeast Asia”, publicado no periódico Platforms & Society por Haiqing Yu, da RMIT University, em Melbourne, na Austrália. O artigo concentra-se nas estratégias das plataformas digitais chinesas para sua expansão no Sudeste Asiático e a medidas de regulação do setor nos países vizinhos.
A pesquisa é resultado de uma investigação empírica conduzida entre 2018 e 2024. Ela envolve análise de discurso, revisão de medidas regulatórias e entrevistas com profissionais da indústria tecnológica. Essas atividades ocorreram na China e em diversas capitais de países do Sudeste Asiático. A metodologia da pesquisa busca desocidentalizar e des-chinacentrizar, nas palavras da autora, os estudos de plataforma, focando na agência local e em como a governança digital emerge das interações entre Estados, empresas e usuários.
É comum ouvir que as empresas chinesas operam como um bloco. No entanto, Yu demonstra que essa expansão é, na verdade, um processo descentralizado, movido por pressões de mercado e saturação doméstica.
Embora as plataformas chinesas de transações digitais tenham adotado uma estratégia de “glocalização” para se adaptarem, os atores locais são agentes ativos, estratégicos e pragmáticos. A forma como respondem às oportunidades e aos desafios em um mundo de rápidas mudanças e incertezas, especialmente diante da crescente presença de atores chineses e de outras nacionalidades na região, merece atenção.
No setor privado, a estratégia é conhecida como “China+” e refere-se à ambição de empreendedores de alavancar a vasta capacidade manufatureira e a maturidade digital da China para conquistar novos mercados no Sul Global. Essa abordagem sugere que modelos de negócios já testados e aprovados no ecossistema chinês podem ser replicados em mercados emergentes com infraestrutura em desenvolvimento.
As empresas chinesas sentem-se prontas para competir com os “tubarões americanos” como Google e Meta. Para elas, o Sudeste Asiático representa vantagens extras, como proximidade geográfica e afinidade cultural de longa data. Porém, os Estados localizados nessa região também criaram suas estratégias de proteção e incentivo locais para prosperar com a alavancagem chinesa.
Para empreendedores transnacionais de origem chinesa, o “China+” serve como uma vantagem competitiva, alavancando a experiência chinesa para prosperar em uma nova economia ou contexto digital. Refere-se não apenas à expansão internacional de empresas chinesas, mas também ao surgimento de ecossistemas híbridos nos quais atores locais desempenham papéis decisivos na mediação, reformulação e, por vezes, restrição das operações da plataforma.
A análise de Yu identifica quatro estratégias distintas que as empresas chinesas utilizam para penetrar nos mercados regionais, cada uma exigindo um nível diferente de negociação local.
A primeira delas é a build (ou construir), que significa estabelecer o produto diretamente. O TikTok, da ByteDance, é o melhor exemplo desse caso. Eles utilizaram a IA para dominar o entretenimento e o live commerce – estratégia de vendas online que combina transmissão ao vivo em vídeo – sem depender de infraestruturas pré-existentes.
A segunda estratégia seria a borrow (ou pegar emprestado), que se trata da entrada via colaboração. O Alipay+ do Ant Group exemplifica isso ao não competir diretamente pelo usuário final, mas ao integrar-se a 78 parceiros de pagamentos locais para facilitar transações transfronteiriças. É como o nosso PIX, que no caso funcionaria para diversos países no Sudeste Asiático.
A terceira estratégia é buy, ou seja, comprar, realizar aquisições agressivas de líderes de mercado. A Alibaba consolidou sua presença ao comprar a Lazada e investir massivamente na Tokopedia, encurtando o caminho para a dominância no e-commerce, por exemplo.
A quarta e última estratégia é a bridge, que significa construir pontes ou se conectar. O papel dos empreendedores transnacionais é conectar capital chinês às necessidades locais. Casos como o da Sea Group (Shopee) e da J&T Express são emblemáticos. A Shopee, por exemplo, adaptou-se ao “glocalizar” a logística e introduzir o pagamento em dinheiro em mercados com baixa bancarização e pouca penetração de cartões de crédito. Já a J&T Express reorganizou os sistemas de entrega para acomodar as complexas geografias urbanas fragmentadas da região.
Essa quarta estratégia é uma elaboração da autora, enquanto as outras são oriundas da literatura que estuda mesmo o cenário
A estrutura de dupla regulamentação
A dupla zonificação, como é chamado pela autora, explica como os Estados gerenciam a tensão entre abertura econômica e soberania. Trata-se de um tratamento regulatório diferenciado entre o que é “nacional/regional” e o que é “estrangeiro”.
O conceito de “zonificação” já foi utilizado por Luzhou Li como uma estrutura para compreender a regulação estatal chinesa das plataformas de vídeo online e da cultura digital: a zonificação serve como um mecanismo para segmentar o espaço digital entre zonas comerciais e zonas controladas pelo Estado. Proponho uma estrutura de “dupla zonificação” para examinar como os países do Sudeste Asiático respondem à expansão digital chinesa.
O primeiro ponto de análise desse modelo refere-se à entrada controlada das plataformas externas. Enquanto a “Zona Um” atua com a finalidade de nutrir “campeões digitais” nacionais e apoiar startups locais, a “Zona Dois” visa primariamente regular a dominância de plataformas estrangeiras, resguardando assim a soberania nacional dos países hospedeiros.
Em relação às medidas regulatórias, a Zona Um é desenhada para ser um ambiente de estímulo. Ela encoraja os aportes financeiros internacionais, a transferência tecnológica e o desenvolvimento de talentos, garantindo o suporte necessário para que as plataformas locais expandam sua escala e operações. Em contrapartida, a Zona Dois atua com um caráter de contenção e defesa, impondo restrições à propriedade estrangeira, exigindo a localização de dados no país e determinando uma forte supervisão para assegurar o cumprimento de políticas nacionais e de moderação de conteúdo.
As políticas públicas centrais acompanham de perto essa divisão. Na Zona Um, o Estado atua como facilitador, oferecendo incentivos fiscais, regulamentações favoráveis, além de infraestrutura e apoio financeiro direcionados à promoção de serviços locais de fintechs e de comércio eletrônico. Por outro lado, as empresas sujeitas à Zona Dois deparam-se com uma governança mais defensiva, ancorada em leis rigorosas de localização de dados, restrições à entrada de novos atores no mercado e exigências estritas ligadas à segurança nacional.
A abordagem de mercado também difere drasticamente entre as duas esferas. Na Zona Um, há uma ampla abertura ao capital estrangeiro, porém condicionada à premissa de que as empresas domésticas retenham o controle absoluto sobre as operações de negócios. Já a Zona Dois é marcada por um acesso comercial restrito e por requisitos de conformidade elevados, o que frequentemente resulta na exigência de que as corporações internacionais estabeleçam parcerias obrigatórias com firmas locais para conseguirem operar no país.
Por fim, a dinâmica dessas duas zonas pode ser percebida em casos ilustrativos. O crescimento do superapp Grab, de Cingapura, exemplifica o sucesso da Zona Um, demonstrando como uma iniciativa regional pode assimilar vasto investimento estrangeiro enquanto preserva sua governança e suas características locais. Opondo-se a isso, o caso de fusão entre o TikTok e a Tokopedia, na Indonésia, é o perfeito retrato da Zona Dois, ilustrando a forma como o governo interveio e obrigou a gigante chinesa a se aliar a um conglomerado doméstico para não perder seu direito de operar no comércio eletrônico indonésio.
“Grabism” e a agência local na Zona Um
Na Zona Um, a resposta industrial é o “grabism” , termo que Yu utiliza para descrever a hibridização de modelos globais por meio da apropriação local. O fenômeno é profundamente influenciado pela cultura “shanzhai” . Originalmente associada a imitações, o shanzhai é redefinido aqui como uma desconstrução criativa que mistura imitação e inovação subversiva.
A Grab não apenas copiou a Uber, ela agarrou o modelo de superapp chinês e o adaptou às nuances do Sudeste Asiático, como a logística de motocicletas e os pagamentos informais. Essa agência manifesta-se também na cultura de trabalho.
Essa “agência infraestrutural” permitiu que a Grab derrotasse a Uber em 2018, provando que dominar as nuances do mercado doméstico é mais poderoso do que possuir um capital infinito.
Conflito na Zona Dois: o caso TikTok-Tokopedia
Quando as plataformas estrangeiras ameaçam o mercado econômico local, entra em cena a Zona Dois. O caso mais dramático ocorreu na Indonésia, em 2023. Preocupado com a destruição de pequenos negócios pelo TikTok Shop, o governo indonésio proibiu transações diretas em redes sociais.
A resposta da ByteDance foi uma capitulação estratégica: a gigante chinesa foi forçada a comprar o controle da Tokopedia, um e-commerce do grupo local GoTo. Hoje, a ByteDance detém 75,01% da operação, mas a transação é processada sob a marca e os sistemas da Tokopedia.
O dado geopolítico mais relevante aqui é a interdependência de capital: o GoTo Group não é chinês. Seu pool de investidores é uma mistura heterogênea que inclui Alibaba e Tencent, mas também as americanas Google, Meta e PayPal. Isso prova que não há um bloco monolítico chinês, mas sim uma rede transnacional onde rivais convergem para o investimento regional.
A governança digital no Sudeste Asiático é uma bricolagem composta por quatro dimensões que operam simultaneamente:
Os Estados aplicam o que Yu chama de “Diplomacia de Bambu”: uma neutralidade estratégica que evita escolher lados na guerra fria tecnológica entre EUA e China. Enquanto o Vietnã oferece o tapete verde para investimentos sustentáveis, todos utilizam leis de localização de dados inspiradas tanto no GDPR europeu quanto na PIPL chinesa.
A infraestrutura física – centros de dados, redes logísticas e regulamentações bancárias – atua como um regulador invisível. As plataformas precisam adaptar-se a uma economia de microtransações e informalidade, redesenhando seus algoritmos para atender a usuários que consomem dados e serviços em pequenas doses diárias.
A escolha do modelo de superapp (integrando mensagens, pagamentos e serviços) é uma estratégia de governança corporativa. Ele centraliza o controle das transações digitais, transformando o aplicativo em uma utilidade pública digital.
O comportamento do usuário final, como a preferência por live commerce e pagamentos em dinheiro, obriga as plataformas a reconfigurarem sua arquitetura técnica. A agência local, portanto, nasce de baixo para cima, filtrada pelos hábitos de consumo da região.
Sudeste Asiático como laboratório regulatório
O Sudeste Asiático emergiu como um dos locais mais produtivos do mundo para observar a hibridização do poder digital. A região não está simplesmente escolhendo entre o modelo do Vale do Silício ou o de Pequim, mas ela está sintetizando uma terceira via pragmática. O “zoneamento duplo” é a ferramenta que permite a esses países serem “glocais”, protegendo suas fronteiras digitais enquanto mantêm suas economias conectadas aos fluxos globais de capital.
No entanto, o estudo de Haiqing Yu aponta para uma questão de cautela ética. Ao olharmos para além das disputas entre grandes potências, não podemos ignorar as consequências sociais dessa plataformização. A expansão do capitalismo digital, seja ele de origem chinesa ou ocidental, instaurou uma nova ordem de extração e mercantilização, não apenas de dados, mas também de corpos e da vida cotidiana.
O Sudeste Asiático é o palco onde essas tensões entre inovação, soberania e exploração humana estão sendo negociadas hoje, definindo o futuro das transações digitais em todo o Sul Global.
Capitalismo de Vigilância no Sul Global
A pesquisa se enquadra no eixo “capitalismo de vigilância pelo Sul Global” do projeto OPlanoB (www.oplanob.com), que questiona as relações entre os atores, corporativos e governamentais, locais e globais, e suas respectivas parcerias. As estratégias regulatórias do Sul Asiático oferecem um retrato mais elaborado de como as políticas influenciam e moldam o desenvolvimento do fenômeno naquela região.
Para ler o artigo: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/29768624261456548

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).









