A IA é frequentemente apresentada como uma tecnologia imaterial, limpa e puramente digital. A narrativa dominante a posiciona como um motor de produtividade, eficiência e inovação. Entretanto, há um custo ambiental para sustentar esse universo digital e esse tema ainda é secundarizado. Enquanto se celebra os avanços dos algoritmos, uma cadeia global de devastação opera nos bastidores: desertos chilenos perfurados em busca de lítio, rios desviados para resfriar servidores famintos por energia e montanhas de lixo eletrônico tóxico se acumulando em nações no Sul Global.

Imagem gerada por IA generativa usando argumentos: IA, Imperialismo, Meio Ambiente e Sul GlobalA partir desta perspectiva crítica é que os pesquisadores John Downey, da Universidade de Loughborough no Reino Unido, e Weili Wang, da Xi’an Universidade de Jiaotong, na China, abordam temas controversos e importantes para pensar a desigualdade e os custos do desenvolvimento da IA. Em seu artigo “For a Political Ecology of Communication: AI and Ecological Imperialism”, publicado no periódico Global Media and China, os autores investigam as implicações ambientais e geopolíticas da expansão da IA, argumentando que ela pode estar reforçando antigas estruturas de poder globais.
A materialidade por trás dos algoritmos que fazem funcionar as IAs se manifesta de várias formas concretas e alarmantes. Em primeiro lugar, haveria um custo pela extração mineral para suprir a demanda de hardware, como lítio e cobalto. Essas atividades de mineração frequentemente ocorrem em regiões ecologicamente sensíveis, causando destruição de habitats, esgotamento de lençóis freáticos e poluição. Há uma demanda cada vez maior por energia, já que um data center típico pode consumir a mesma quantidade de eletricidade uma cidade de média. As projeções indicam que, até 2028, essas infraestruturas poderão consumir até 12% de toda a eletricidade dos EUA.
Há uma necessidade cada vez maior pelo consumo de água para o resfriamento desses data centers, exacerbando a pressão sobre recursos hídricos em diversas localidades, podendo levar até o esgotamento de água potável disponível para certas regiões. Por fim, há a produção cada vez maior de lixo eletrônico, já que a rápida obsolescência do hardware acelera a troca de equipamentos. Estima-se que isso possa chegar entre 1,2 e 5,0 milhões de toneladas até 2030 e, na maioria das vezes, o material é exportado para nações pobres como descarte.
Há custos ambientais e ecológicos enormes e eles são desigualmente divididos porque as assimetrias de poder estão sendo reforçadas com os serviços de IAs.
Imperialismo ecológico em nova roupagem
O conceito central do artigo é o que os autores convencionam como “imperialismo ecológico”, termo originalmente cunhado por Alfred Crosby para descrever como as potências coloniais remodelaram os ambientes de territórios dominados para seu próprio benefício econômico. Hoje, descreveria como a prosperidade do Norte Global depende estruturalmente da apropriação de recursos e da externalização de custos ambientais para o Sul Global.
O Imperialismo ecológico também se expressa na uma “apropriação atmosférica”, na medida que as emissões de gases provocadores do efeito estufa a partir do Norte Global já consumiram a maior parte dos limites para planeta, deixando as nações do Sul com uma dívida climática impagável e sem margem para seu próprio desenvolvimento.
Assim, o Norte Global colhe os principais benefícios do desenvolvimento da IA enquanto a degradação ambiental causada pela extração mineral e pelo descarte de lixo eletrônico é desproporcionalmente suportada por regiões vulneráveis no Sul. Essa dinâmica reforça desigualdades históricas, nas quais o progresso tecnológico de alguns é sustentado pelo sacrifício ecológico de outros, afirmam os autores do estudo.
A escala do extrativismo digital é estarrecedora e rivaliza e até supera o consumo de metrópoles globais. A emissão anual de uma única gigante da tecnologia como a Amazon, por exemplo, é maior que de toda a cidade de Nova Iorque. As emissões da Microsoft e Google, individualmente, superam as emissões de Tóquio.
A expansão da IA cria contradições nos próprios objetivos de sustentabilidade dessas empresas. A Microsoft, por exemplo, que possui a meta de se tornar carbono neutro até 2030, aumentou seu consumo em 25% devido às operações de IA.
Uma solução que alimenta o problema
Existe um contra-argumento, frequentemente chamado de “futurismo da IA” ou “utopismo tecnológico”, que afirma que a IA pode ser uma ferramenta crucial para a sustentabilidade. Segundo essa visão, a IA pode aumentar a eficiência dos recursos, aprimorar a modelagem climática e transformar sistemas complexos para combater as mudanças climáticas.
Downey e Wang criticam essa perspectiva otimista. Eles apontam que tais cenários frequentemente ignoram que um aumento na eficiência de uso de um recurso tende a aumentar, em vez de diminuir, o consumo geral desse recurso. É como quando um carro mais eficiente em consumo de combustível incentiva o motorista a dirigir mais, anulando ou até superando a economia de emissões. Os autores consideram que, diante das contradições atuais entre crescimento econômico e proteção ambiental, essas visões otimistas são no máximo um “pensamento positivo”.
A análise revela uma verdade inconveniente: por trás da promessa de um futuro digital limpo, a IA carrega um pesado fardo ambiental e social, distribuído de forma desigual pelo mundo. O progresso tecnológico não pode ser avaliado isoladamente de seus custos materiais e de suas implicações para a justiça global.
O artigo conclui com um chamado à ação: a necessidade urgente de criar um novo campo de estudo, uma “ecologia política da comunicação”, fazendo referência a tradição dos estudos de economia política da comunicação das décadas de 1970 e 1980. Essa nova área não se limitaria a medir os custos e benefícios ambientais de tecnologias como a IA, mas também analisaria como esses impactos são distribuídos de forma desigual globalmente, combinando dados empíricos com uma análise ética.
A verdadeira questão, levantada pelo estudo, não é se a IA pode nos salvar, mas se podemos desenvolver a responsabilidade política e ética para salvá-la de si mesma, garantindo que o progresso tecnológico sirva à justiça global e não a uma nova era de sacrifício ecológico.
Capitalismo de vigilância no Sul Global
A ecologia política da comunicação proposta por Downey e Wang se enquadra no eixo de pesquisa que OplanoB classifica como “capitalismo de vigilância pelo Sul Global”. Essa perspectiva prioriza o foco na importância das assimetrias de diferentes tipos de poder (político, econômico, simbólico) entre diversos atores, mas mais especificamente entre Norte e Sul.
Nesse caso específico, inclusive, adiciona algo que não tratamos como temática, mas que cada vez tem se tornado uma questão relevante nas pesquisas: a questão ambiental e o uso de IAs, principalmente no que se refere a infraestrutura necessária para que esses novos modelos de linguagem sejam disponibilizados pelas big techs.
Para ler o artigo: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/20594364251400876

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).









