sorria seus metadados são nossos

por T. C. Soares em 12 de agosto de 2013, zero comentários

Ficou encanado/a com o programa de espionagem online do Obama? Anda com o pé atrás com o TSE depois daquela história da Justiça Eleitoral repassar os dados pessoais de todo mundo pro Serasa? Começou a apagar o histórico de navegação do computador a cada meia hora? Em colaboração pro OPlanoB, a Marta Kanashiro, que acompanha bem de perto esse debate, comenta a lógica de rastreamento e cruzamento total de dados nos ambientes digitais – e o quanto isso nos afeta nas pequenas coisas.

 

Os debates sobre dados pessoais e espionagem que estouraram com o caso NSA/Prism são uma grande oportunidade para publicizar inúmeras questões.

Dentre muitas, uma recente matéria do Libération nos obriga a questionar o que Obama quer dizer quando afirma que a espionagem não afeta (ou seja, “não se dirige a”) cidadãos comuns (e é um pouco preocupante se isso te deixou aliviado ou esperançoso). Afinal, essa afirmação está bem próxima da ideia de que “se você não deve, não teme”. Em época de tantas divisões e construções de perfis, talvez devêssemos ficar mais atentos e não cair no conto de que os EUA estariam encontrando um equilíbrio entre segurança e privacidade que não atinge “a gente”. Afinal, quem define se você é vândalo? Ou manifestante pacífico? Ou terrorista? Ou cidadão de bem? Ou aliado? E note que a palavra perfil (“profile”, em inglês), não à toa, não é substituível por “representação”, ou “identidade”. Daria até pra dizer que o termo foi escolhido para que nos obriguemos a entender como é possível, a partir da pura relação entre dados, estabelecer perfis.

A explicação (um apelo) do Obama foi a seguinte: “… quero, mais uma vez, ressaltar que a América não está interessada em espionar pessoas comuns. Nossos serviços de inteligência estão focados em encontrar a informação necessária para proteger o seu povo e, em muitos casos, para proteger seus aliados ” – E deixamos todos com a angustiante necessidade de pensar se você se considera comum, aliado e pacífico, e com a curiosa proposição de atividade: qual perfil poderia ser traçado de tudo o que você faz e troca na internet?

Enquanto isso, no universo brasileiro, a gente bem que poderia perceber a proximidade que existe entre o Prism e o recente acordo revelado entre TSE & Serasa.

Aliás, deveríamos ficar muito atentos ao debate – que já promete sumir de cena – em prol de “uma eleição muito moderna!” Sim, porque afinal já vieram se explicar, não? O dano já foi revertido (bem, é o que nos dizem, apaziguando a coisa): a presidenta do TSE anulou o acordo com a Serasa e também nos garantiu que nenhum dado foi transmitido. Ufa! Podemos esquecer o assunto e respirar aliviados. Podemos? Talvez o papo por lá tenha sido o seguinte: “Apaga rápido esse incêndio, antes que comecem a questionar a urna biométrica. Pelamor, as eleições estão aí. Como vocês deixam aparecer um negócio desses justo agora que a gente estava promovendo o recadastramento de eleitores e a urna biométrica! Vocês sabem o quanto gastamos para enfiar aquele monte de propagandas na TV para promover esse processo?”

Mas ok, somos muito imaginativos. Um papo desses jamais deve ter acontecido. Ainda assim, vale a pena ao menos desconfiar um pouco, levar em consideração que as coisas não estão todas resolvidas e apontam problemas bem mais sérios, relativos a tudo que valeria em seus dados, cidadão comum.

Para quem tem interesse em se aprofundar no assunto ou ainda não entendeu o quanto valem seus dados e tudo que gira em torno disso (algo que, na verdade, não é sobre os SEUS ou os MEUS dados, mas que tem a ver, no grande cenário, com a lógica “informação = valor”) vale a pena ler o artigo Metadata or Content: NSA is not the only data collector you should fear. Mesmo que não dê para concordar com o texto quando diz “que devemos temer os coletores de dados”, ele é interessante para percebermos a necessidade de nos informar e perceber que já estamos participando disso. A matéria fala, entre outros, dos jogos e aplicativos que rolam dentro do Facebook: listando alguns como os Farmville, os Criminals da vida etc. E chama a atenção: “Cada vez que você autorizar um aplicativo ou jogo usando uma conta de mídia social, tire um tempo para saber quais metadados ou conteúdos você está se comprometendo a compartilhar”.

Marta Kanashiro é professora da Unicamp e membro da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS)

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