Nukezilla

por Rafael Evangelista em 24 de agosto de 2013, um comentário

Os melhores filmes de monstros e/ou de terror são aqueles cujo medo não é causado propriamente pela criatura, mas pelo que ela representa – e essa é uma ideia até já meio batida. Nessa linha, Brian Merchant, da Motherboard, foi assistir o Godzilla original pela primeira vez – o filme vai fazer 60 anos no ano que vem. Ele pirou e escreveu um texto bem massa lembrando que o filme está ligado não só às bombas de Hiroshima e Nagasaki mas também a um acidente menos conhecido, no Atol de Bikini, ocorrido seis anos depois das bombas, quando os americanos testavam a bomba de hidrogênio.

As bombas nucleares das forças armadas americanas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki abriram uma ferida purulenta no tecido da sociedade japonesa. Mas foi um incidente que ocorreu seis anos depois, em 1954, quando os americanos testaram uma bomba de hidrogênio acidentalmente muito perto de um navio de pesca japonês, que inspirou Godzilla. A bomba caiu encharcado 23 homens com suas cinzas (o fallout), tornando-os os primeiros civis a serem submetidos a radiação de armas em tempo de paz. Foi também um lembrete para Japão ocupado que a bomba ainda estava muito viva. O pesadelo atômico não foi relegado às Guerras Mundiais, era uma ameaça onipresente.

Portanto, faz sentido que Godzilla comece com um navio de pesca que aparece em combustão espontânea. A explosão, as chamas, parecem vir do próprio mar. Antes de os marinheiros saberem o que os atingiu, eles se foram.

Mas ao contrário do que dá a entender Merchant, o acidente original não implicou na morte instantânea dos pescadores. Primeiro eles viram uma luz a oeste, como um nascer do Sol. Oito minutos depois veio o som da bomba, que se mostrou duas vezes mais poderosa do que o esperado. Três horas mais tarde, cinzas brancas, produzidas pela calcinação dos corais da ilha, começaram a cair por todo o barco durante três horas. Os pescadores retiraram as cinzas com as mãos nuas. Quando retornaram ao porto se queixavam de náuseas, dores de cabeça, queimação na pele, ardência nos olhos e tinham as gengivas sangrando. Sete meses depois, em setembro de 1954, morreu a primeira vítima, o operador de rádio do barco.

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“Godzilla destrói não só vidas, claro, mas infraestrutura – pontes, linhas de transmissão e, talvez mais notoriamente, trens. Coisas caras que são difíceis de reconstruir, tomam anos”

Outro dado curioso e cruel da matéria da Motherboard é que, logo após o acidente de Fukushima, as buscas por Godzilla no Google japonês sofreram um pico. Isso mostra que o monstro continua marcado na cultura do país como a grande história sobre a cautela necessária com as coisas nucleares.

Dica de texto do @filipesaraiva

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