Sem solucionismos: a saída do capitalismo plataformizado só pode ser pela política

por Fabricio Solagna em 19 de janeiro de 2026, Comentários desativados em Sem solucionismos: a saída do capitalismo plataformizado só pode ser pela política

Os dados não são o novo petróleo, assim como o petróleo não foi quem definiu as formas de trabalho no século passado. Além da tecnologia ou inovação, a principal característica desse sistema reside na transformação do trabalho, que atualmente é plataformizado, ou “uberizado”. A grande diferença é que o novo modelo de negócio é global e convence os trabalhadores a serem “empreendedores de si mesmos”.

Imagem gerada por IA generativa usando argumentos: Uberização, trabalho, política

“Há uma conexão entre o capitalismo de plataforma e a ideologia neoliberal.” Essa é uma das reflexões do artigo “Theses on Platform Capitalism and Neoliberalism – Reflections on Global Trends From the (Semi)Periphery of Capitalism”, de autoria de Eduardo Altheman C. Santos, atualmente vinculado ao Käte Hamburger Centre for Apocalyptic and Post-Apocalyptic Studies, da Universidade de Heidelberg, na Alemanha. O trabalho, publicado na revista TripleC, usa dados de uma etnografia realizada entre 2020 e 2021 com trabalhadores de aplicativo na cidade de São Paulo-SP.

Santos organiza seu trabalho em treze teses. Algumas delas são bem conhecidas, como a externalização dos custos pelas big techs, a precarização intensificada e a ideologia do empreendedorismo. Entretanto, há também novos argumentos instigantes em sua proposta, que destoam de outros estudos sobre o tema.

Um delas é que há uma “des-democratização” neoliberal, na medida que os direitos coletivos são substituídos por direitos individuais isolados. Agora, o “colaborador ou empreendedor”, e não mais o trabalhador, tem uma única interface de aplicativo para se relacionar com os algoritmos, ao invés de um gerente. É esse algoritmo que determina seu ritmo de trabalho e seus ganhos. A perspectiva de identidade coletiva fica subsumida e os laços de solidariedade são obscurecidos por uma competição irrestrita diante de uma gamificação do trabalho.

O autor desafia entender que o capitalismo de plataforma não se reduz à extração e processamento de dados. São mais que dados, assim como o petróleo não definiu, por si só, as relações sociais fordistas. O trabalho vivo é quem move os mecanismos da plataforma e, por isso, ele é central. O capitalismo de plataforma seria, em última análise, a nova forma de organizar a força de trabalho no capitalismo tardio.

Segundo dados das próprias plataformas citadas pelo autor, nos EUA, calcula-se que 57 milhões de pessoas façam parte da força de trabalho de plataforma. No Brasil, seriam 32 milhões. Ou seja, é um contingente que excede qualquer outra categoria laboral.

A capacidade de “se virar”, algo comum nas margens do capitalismo, passa por uma inversão de sinais, na medida que se torna característica desejável no capitalismo de plataforma. Se antes poderia ser uma característica da precariedade, agora é algo positivo e sinal de sucesso.

Nesse sentido, Santos considera que as iniciativas de cooperativismo de plataforma têm sérios limites. A ideia de reformar ou humanizar o sistema seria inviável, ou o retrato de mais um solucionismo tecnológico.

O caminho, argumenta, só pode ser político. O problema não é tecnológico, e a verdadeira resposta reside na crítica da economia política.

Não existe economia de plataforma “justa” – assim como não existe capitalismo benevolente. Todo o modelo de plataforma se sustenta em múltiplos pilares: a extração, mineração e transação (frequentemente ilegais) de dados de usuários, trabalhadores e estabelecimentos comerciais (…) Para sermos diretos: devemos lutar por sistemas de transporte público, universal e adequado, ou por cooperativas de táxi? Por moradia como um direito humano fundamental ou por descontos no aluguel em cooperativas de plataforma como o Airbnb? Estamos lutando por um mundo justo e habitável ou pela redistribuição justa dos dividendos provenientes da extração de petróleo?

A solução estaria em construir um mundo onde a vida não dependa da submissão a um algoritmo, ou das empresas que os controlam.

A questão do trabalho no capitalismo de vigilância já foi tratada em outros textos analisados pelo OplanoB, como este texto do pesquisador Federico De Stavola. Eles se enquadram no eixo de pesquisa “capitalismo de vigilância no Sul Global”, que foca na análise da centralidade econômica e nas razões do sucesso desse fenômeno nas margens do capitalismo.

Para ler o artigo: https://doi.org/10.31269/gpz5xh58

Lavits

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).