Dadificação da morte: um genocídio controlado por IAs e comandado por Israel

por Fabricio Solagna em 26 de janeiro de 2026, Comentários desativados em Dadificação da morte: um genocídio controlado por IAs e comandado por Israel

A guerra na Faixa de Gaza, perpetrada por Israel contra os palestinos, tem sido classificada como um genocídio por diversos especialistas, inclusive por uma investigação independente da ONU.

A forma de executar os ataques se diferencia por utilizar inúmeros sistemas de vigilância com auxílio de IAs que automatizam a classificação de supostos alvos. Os programas Lavender, The Gospel e Where’s Daddy operam conjuntamente para identificar o que Israel considera uma ameaça e propõem intervenções prevendo, já de antemão, a morte de um número significativo de civis.

Imagem gerada por IA generativa usando argumentos: Guerra, Faixa de Gaza, Inteligência Artificial

Essas tecnologias já são parte da atuação institucional como uma “estrutura de vigilância genocida” (GSA, em inglês), termo proposto pelos pesquisadores Mais Qandeel, da Universidade de Galway, na Irlanda, e Özgün Erdener Topak, da Universidade de York, no Canadá. Eles publicaram o artigo “Genocidal Surveillant Assemblage in Palestine: A Socio-Legal Analysis” no Journal of Genocide Research, onde aprofundam o estudo desses sistemas.

O termo “estrutura de vigilância genocida” tem origem nos estudos críticos de vigilância. A diferença é que se trata de um projeto coordenado por um Estado que utiliza todo seu poder infraestrutural para unir sistemas visando destruir um grupo racial ou étnico. Seria uma nova fase na brutalidade organizada, caracterizada por ser sistemática, ideologicamente articulada, tecnologicamente eficaz e de administração estatal. É uma forma perigosa de governança genocida, enraizada no projeto colonial de Israel, que estabelece um precedente para futuros conflitos, segundo os autores.

O sistema Lavender é um dos motores do GSA. Sua função é analisar dados de vigilância em massa — redes sociais, telefones, espionagem etc. — para atribuir uma pontuação a todos os indivíduos na Faixa de Gaza, indicando a probabilidade de serem militantes e potenciais alvos da guerra. O programa teria indicado aproximadamente 37 mil palestinos e continuaria funcionando, apontando para uma guerra sem fim.

O Where’s Daddy, por sua vez, rastreia os indivíduos marcados até suas residências para atacá-los quando estiverem com suas famílias. As mortes que podem ocorrer em função dos ataques — eufemisticamente chamadas de danos colaterais — podem chegar a vinte pessoas para alvos de menor importância e até cem pessoas para alvos considerados de grande importância, como militares de alto escalão.

Já o The Gospel foca na geração de alvos de infraestrutura. Ele identifica edifícios e estruturas associadas a pretensos suspeitos e funciona com ênfase no maior dano, e não necessariamente na precisão. É por conta disso que prédios residenciais inteiros, hospitais ou escolas são destruídos, segundo dados levantados na pesquisa.

No passado, havia momentos em Gaza em que criávamos cinquenta alvos por ano. E aqui a máquina produziu cem alvos em um dia”, segundo as palavras do ex-chefe das Forças Armadas israelenses, Aviv Kochavi

A utilização automatizada dessas ferramentas leva a um distanciamento da decisão e da responsabilização humana sobre as consequências da guerra. A supervisão das decisões é mínima ou meramente burocrática. Relatos de soldados israelenses indicam que se gastaria menos de vinte segundos para autorizar um bombardeio gerado pela IA. Um dos poucos critérios da verificação humana é se os alvos são do sexo masculino.

É uma convergência de duas forças: o acúmulo de décadas de vigilância territorial com uma camada de última geração de inteligência artificial.

Nesse contexto, as big techs possuem papel central. As empresas proporcionaram infraestrutura ilimitada com capacidades de IA, incluindo detecção facial, rastreamento de objetos e análise de sentimentos. A Palantir Technologies fornece, há bastante tempo, programas de policiamento preditivo para Israel. Google e Amazon têm parceria com o governo israelense pelo Projeto Nimbus desde 2021. A Microsoft também é incorporada nos serviços de nuvem, monitoramento e processamento de dados que compõem essa estrutura de vigilância.

O estudo aponta que o GSA representa uma nova etapa no processo moderno de “burocratização cumulativa da coerção”. Os sistemas de IA rotinizaram o assassinato em massa, tornando-o um processo estatístico, dadificado e frio, como descrito por um soldado israelense: “A máquina faz isso friamente. E torna tudo mais fácil”.

Isso significa que o novo sistema de vigilância molda a ação genocida, usando a geração de alvos como uma técnica de poder. Há um contexto histórico do colonialismo de povoamento de Israel na Palestina que, ao mesmo tempo, promove esse projeto e utiliza a situação de guerra para alimentá-lo e aprimorá-lo sob a ótica da eficácia militar.

Tudo isso abre um precedente perigoso, ressaltam os autores. O GSA representaria um modelo de genocídio para o século XXI. Se os perpetradores estatais e corporativos não forem responsabilizados, existe um alto risco de que este modelo seja exportado e replicado em outros contextos, utilizando as tecnologias de vigilância mais avançadas para cometer atrocidades como as que vêm sendo presenciadas na Faixa de Gaza.

O tipo de análise do artigo se encaixa no eixo de pesquisa que o OplanoB classifica como “capitalismo de vigilância no Sul Global”, que dedica o olhar para as parcerias entre as big techs e Estados nacionais para explicar as razões do sucesso desse fenômeno nas margens do capitalismo que, neste caso particular, utiliza-se da guerra para lucrar.

Para ler o artigo: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/14623528.2025.2567372

Lavits

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).