O Plano B

coisas

don’t be (an) evil (robot)

por Rafael Evangelista em 23 de dezembro de 2013, um comentário

Dias desses rolou o comentário acima na minha timeline do twitter, altamente retuitado. E pra além da galhofa ele sinaliza duas coisas acontecendo com o Google: um aprofundamento da investida em um futuro singularista kurzweiliano (já explico); rachaduras na imagem pública de empresa boazinha da empresa, quase impensável há alguns poucos anos.

Singularismo kurzweiliano: Ray Kurzweil, recentemente contratado pelo Google, é o principal ideólogo de uma corrente do transhumanismo chamada de Singularidade, que basicamente crê (ou prevê), um futuro em que aconteceria uma fusão entre homens e máquinas tão radicalmente significativa que seria literalmente um salto evolutivo da humanidade. Sim, no sentido darwiniano, ou seja: macaco -> homem -> robô (desculpa aí a super-simplificação, amigos biólogos).

Não que o Google esteja passando por algum tipo de ruptura do tipo “era bonzinho no passado mas traiu o movimento e se vendeu pro grande capital”. Neste texto aqui exploro mais longamente as relações ideológicas que vejo entre essa galera do Vale do Silício e os singularistas.

A questão é que a Singularidade de Kurzweil passaria por três campos principais: a biotecnologia, a inteligência artificial e a nanotecnologia. O investimento nessas áreas seria mais do que a produção de um futuro desejável – na visão deles -, uma utopia tecnológica em que quase todos os problemas humanos seriam resolvidos (meio ambiente, racismo, intolerância, doenças). Seria uma oportunidade de negócios.

Pois bem, o Google adquiriu agora a Boston Dynamics e, rapaz, a Boston Dynamics faz coisas assustadoras viu. Digo, procurem por vídeos dos robôs feitos por eles. Impressionam, sim, pelo grau de avanço mas, principalmente, porque a Boston tem entre seus principais clientes o setor militar. Ou seja, são robôs parrudos, feitos para andar em campos de batalha bastante inóspitos. E são robôs fortes e grandes, sim como os do Exterminador do Futuro mesmo.

Aparece então uma contradição interessante com a história criativa do Vale do Silício. O financiamento militar foi algo que uma primeira geração — mais hippie, mas altamente influente — rejeitou muito. Colaborar com os militares era o exato contrário do que desejava um movimento que tinha como uma de suas bases a rejeição das hierarquias e do poder. Porém, como se sabe, as gerações nerd-hippies seguintes não se mostraram tão firmes assim na rejeição ao militarismo e, principalmente, da ganância.

A aquisição da Boston Dynamics talvez sirva para marcar que, hoje, o Vale do Silício tenha mais a ver com esse futurismo acelerado do Kurzweil do que com a imagem de hippie paz e amor que eles buscaram projetar. Ou pelo menos que não há, na cabeça deles quando repousada no travesseiro, contradição nisso tudo.

Usando a Boton Dynamics como gancho, os amigos do CubaDebate (¡Hasta la victoria siempre!), baseados num analista do The Motly Fool (vejam a ironia), mandaram uma lista do que seriam os… PASSOS PARA O DOMÍNIO GLOBAL. Vou manter em castellano, que é mais massa e vocês entendem.

1. Control sobre el flujo de información
O buscador, basicamente, e todas as informações sobre nós que ele captura

2. Control sobre el acceso a la información
Também o buscador, mas também o Android – hoje dominante nos celulares – e o Google Glass

3. Control sobre el transporte
As experiências com carros automáticos, sem motoristas

4. Control del mercado de labor física
Aqui a coisa fica mais interessante, porque não é só ver os robôs fazendo guerra mimimi, significa vê-los substituindo a força de trabalho.

Boston Dynamics, que ha sido la octava empresa que Google ha adquirido este año, es famosa por crear los robots más avanzados del planeta. Aunque lo único que por el momento estas máquinas saben hacer es andar y correr igual que personas y animales, de igual manera algún dían podrán aprender a hacer otras tareas, como preparar una cena perfecta, por ejemplo. “Poco a poco los robots se ocuparán de toda labor física, dejando la intelectual a los humanos. Es ahí donde Google “será implantado en la infraestructura económica mundial”, señala Planes.5. Control sobre la vida en sí

5. Control sobre la vida en sí
Aqui vejo os olhinhos do Kurzweil brilhando. Biotec:

En septiembre Google anunció la fundación de Calico, una empresa que se dedicará a la investigación del envejecimiento, la longevidad y la búsqueda de maneras de aumentar la duración de la vida. “Todas las ambiciones son pálidas en comparación con esta”, dice Planes. “Con esta solución en las manos, Google controlará no solo tu acceso a la información, sino también cuánto tiempo podrás vivir para acceder a la misma”.

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E vamos com uma cereja nesse bolo. Em casa (San Francisco), as coisas não estão bem. O hype em torno do Vale do Silício significou um baita processo de gentrificação na área. Todo aspirante a Steve Jobs-Larry Page busca estar na região para fazer contatos e vender seu peixe. Resultado: os aluguéis subiram e continuam subindo e tem muita gente boa – e com um jeito alternativo de viver muito mais tradicional – sendo expulsa da região.

Pra se ter uma ideia, dia desse o Cory Doctorow (outro guru do Vale) retuitou o seguinte, vindo do Boing Boing: um dormitório coletivo para ~hackers~ em San Francisco por “meros” mil doletas por mês.

https://twitter.com/BoingBoing/status/414579079883395072

No último dia 20 alguns locais mais radicais chegaram a parar um ônibus que levava funcionários do Google para seu ~QG~ para protestar contra gentrificação (mas também contra o rompimento de um estilo de vida mais sossegado). Quebraram o vidro do ônibus e estenderam faixas com frases gentis como GOOGLE FUCK OFF e, a mais divertida, TECHIES: Your World Is Not Welcome Here. Choque cultural, amigos.

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