No Chile, houve uma mobilização social contrária a exploração da água e dos materiais críticos para a manutenção de datacenters do Google. Sob o slogan “no es sequía, es saqueo” (não é seca, é saque) pessoas saíram nas ruas, provocaram audiências públicas e conseguiram impedir o avanço de projetos controvesos no país.

O pesquisador Sebastián Lehuedé, vinculado ao King’s College de Londres e a Universidade de Cambridge, publicou um artigo na revista científica AI & Society sob o título: “An elemental ethics for artificial intelligence: water as resistance within AI’s value chain”.
Ele não trata as comunidades afetadas como meras vítimas, mas como sujeitos políticos e detentores de um conhecimento legítimo, ou uma ética de resistência, que desafia os marcos regulatórios e morais impostos pelas big techs do Norte Global. Na pesquisa, utiliza métodos qualitativos como entrevistas em profundidade, observação participante e análise semiótica de materiais de protesto.
A pesquisa demonstra como a soberania digital e a justiça climática estão completamente conectadas.
O centro da polêmica
Em Cerrillos, um bairro de classe trabalhadora em Santiago, o Google projetou a construção de um mega datacenter. O relatório ambiental inicial previa o consumo astronômico de 169 litros de água por segundo para o resfriamento de servidores. Numa região assolada por uma “megasseca” que já dura mais de uma década, esse volume equivale ao consumo anual de aproximadamente 80 mil residentes em apenas um dia de operação.
A resistência a esse projeto veio das organizações de base e populares, principalmente o Movimento Socioambiental Comunitário por Água e Território (MOSACAT), composto majoritariamente por mulheres, e o Conselho dos Povos Atacamenhos, que reuniu 18 comunidades Lickan Antay, povo originário do Deserto do Atacama. Eles cresceram em meio aos protestos de 2019 e pelo trabalho de ampliar as pautas de reivindicações, includindo questões ambientais e de direitos sociais.
O movimento rompeu o verniz de “progresso limpo”. Para essas moradoras, a ameaça era concreta, afinal a instalação de um vizinho corporativo tão sedento pela água escassa poderia significar a impossibilidade de realizar atos cotidianos e vitais, como tomar banho ou lavar roupas.
Em 2022, após pressão popular e vitórias em referendos locais, a empresa foi forçada a anunciar que não utilizaria mais água para o resfriamento nesse projeto específico.
Enquanto isso, no Deserto do Atacama, o cenário é de uma “mineração de água”. O lítio, essencial para as baterias de dispositivos que alimentam o fluxo ininterrupto de dados da IA, é extraído através do bombeamento de salmoura.
Embora vendido sob o rótulo de “tecnologia verde” e “transição energética”, o processo é devastador. Segundo Jorge Ramírez, do Conselho de Povos Atacamenhos, o impacto é de uma escala difícil de mensurar:
“Eles chamam isso de mineração de água aqui. Não de lítio, entende? Vastos volumes são extraídos para que o Norte Global tenha sua sustentabilidade, enquanto nós ficamos com o deserto esvaziado. A mineração de lítio corresponde a cerca de 2 mil litros por segundo de salmoura evaporada.”
Isso faria parte de um processo mais amplo que envolve a indústria da IA, a qual precisa extrair elementos como lítio, cobalto e água para fabricar seus chips e resfriar seus respectivos datacenters, ao mesmo tempo que se anuncia como tecnologia sustentável e verde. O que ocorreria, de fato, seria uma nova forma de colonialismo, agora digital, onde o equilíbrio ecológico do Sul é sacrificado para manter o conforto tecnológico do Norte.
A ética elemental
Lehuedé propõe que a resistência dessas comunidades fundamenta o que ele chama de “ética elemental”. Diferente das diretrizes de ética de IA corporativas, focadas em métricas de produtividade ou algoritmos “justos”, essa ética nasce do solo, da água e do corpo.
A luta política é retirada da abstração e situada na materialidade da água. Enquanto grupos de direitos digitais tradicionais lutam contra “fantasmas” como a perda de privacidade ou a vigilância algorítmica, o MOSACAT foca no que é palpável. A água apela ao afeto e à urgência. A mobilização em torno do direito de dar descarga ou de manter o jardim vivo humaniza a resistência tecnológica, transformando uma discussão de engenharia em uma defesa da dignidade cotidiana. É o que o pesquisador chama de enquadramento elemental da política.
A periferia se torna parte das “zonas de sacrifício” da “injustiça elemental”. O Chile torna-se o território que absorve o dano ambiental para que o Vale do Silício floresça. Há uma apropriação ontológica: a indústria vê a água apenas como insumo químico (H2O), um recurso morto para resfriar máquinas. Em contraste, o MOSACAT utiliza a imagem da “mulher água” em suas artes, personificando o elemento como um agente político dotado de direitos. Esta visão ressoa com o conceito de “direitos da natureza”, essencial para a soberania digital dos povos.
As big techs e o Estado operam através de uma “ignorância estratégica”. Sabe-se quanto a máquina consome, mas oculta-se a capacidade real de renovação dos aquíferos. Lehuedé introduz a “teoria do limiar de poluição”, ou seja, a ideia de que o dano ambiental é tolerado e considerado aceitável até que se prove ser “irreversível” por padrões científicos frios. Enquanto flamingos morrem e árvores secam, as empresas pedem “mais dados”, ignorando que a ausência de um estudo hidrogeológico completo é, em si, uma ferramenta de poder para manter a exploração ativa.
Para o povo Lickan Antay, a água é sagrada, referida na língua Kunza como puri. Ela é vista como as “veias da Mãe Terra”. A gestão tecnocrática da água pela mineração rompe rituais ancestrais milenares, como a limpia de canales (limpeza de canais). Esse ritual não é apenas manutenção técnica, é um ato social e espiritual que garante a coesão da comunidade. Quando sensores digitais substituem a observação sensível dos anciãos, ocorre uma violência ontológica, a redução de uma relação sagrada a uma planilha de monitoramento gerencial.
Esse é o ponto de maior tensão política. No Norte Global, a elite da “AI Safety” discute o risco de extinção da humanidade por uma superinteligência robótica hipotética. No entanto, no Atacama, a palavra “extinção” já era usada por líderes como Francisco Valdivieso na COP25, em 2019, antes do hype atual da IA.
Para o povo Lickan Antay, a extinção não é um cenário de ficção científica, mas a morte iminente de sua cultura e de seu território. Lehuedé evoca o conceito de necropolítica, de Achille Mbembe, para questionar: quem tem o direito de ser protegido pela ética da IA? Enquanto nos preocupamos com robôs rebeldes, a infraestrutura da IA já estaria praticando uma seleção de quais “humanidades” são descartáveis.
A agenda de segurança da IA está em descompasso com a realidade material. Enquanto bilionários do setor investem em “altruísmo eficaz” para prevenir apocalipses futuros, eles negligenciam os apocalipses lentos e silenciosos que suas próprias cadeias de suprimento causam no Sul Global.
A pesquisa de Lehuedé sugere que nenhuma IA pode ser considerada “inteligente” se sua manutenção exige a dessecação de ecossistemas ou o apagamento de cosmologias ancestrais.
Existe uma hierarquização cruel de sofrimento. O “bem comum” promovido pela IA para o mundo é construído sobre o sofrimento particular de territórios como Cerrillos. Para que um usuário na Europa ou nos EUA tenha uma resposta instantânea de um chatbot, uma comunidade no Chile pode perder o acesso ao seu poço artesiano. A verdadeira sustentabilidade da IA não pode ser medida apenas em créditos de carbono, mas na preservação do pluriverso, a ideia de um mundo onde caibam muitos mundos e muitas formas de entender o que é vida.
A soberania digital, portanto, não se resume a ter servidores próprios ou códigos abertos, ela começa na soberania sobre os elementos. Sem o controle sobre a água e sobre a terra, a autonomia tecnológica de uma nação é uma ilusão sustentada por infraestruturas estrangeiras que extraem valor físico e devolvem precariedade ambiental, segundo o pesquisador.
As conclusões de Sebastián Lehuedé são um chamado à ação para pesquisadores, reguladores e cidadãos. Alerta para a urgência em promover uma alfabetização em IA que vá além do código e alcance a geologia. Destaca a necessidade de entender que cada interação digital tem um custo hídrico e mineral.
A ética de resistência do MOSACAT e do povo Lickan Antay pode ser um guia para uma tecnologia que respeite as obrigações situadas e o cuidado com o território. A resistência no Chile ensina que o progresso tecnológico não pode ser uma rota de fuga da nossa dependência elemental da Terra. Em última análise, a IA só será ética quando aprender a reverenciar a água e a respeitar as comunidades que, por séculos, protegem o equilíbrio da vida contra a voracidade do extrativismo.
Capitalismo de Vigilância a partir do Sul Global
Esta pesquisa se enquadra na análise do Capitalismo de Vigilância a partir do Sul Global do PlanoB (www.oplanob.com) por mostrar as tensões e residências. Destaca-se como o extrativismo mineral e hídrico em territórios periféricos é a base material indispensável para a acumulação de dados e o funcionamento físico das big techs no Norte. A pesquisa em especial destaca como a soberania digital não pode ser pensada apenas como controle de dados, mas como a proteção dos recursos vitais que permitem a existência de qualquer sistema tecnológico.
Para ler o artigo: https://doi.org/10.1007/s00146-024-01922-2

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).
