Ao despertar com o alarme do smartphone, ao pedir um almoço por aplicativo ou ao traçar a rota no GPS, a maioria das pessoas não sente o peso das engrenagens que sustentam esse sistema. O que se vende como progresso tecnológico é, muitas vezes, um cabresto digital, uma nova forma de a tecnologia se tornar imprescindível, mesmo que nunca tenha sido realmente necessária. O “fantasma na máquina”, aqui, não é um erro de sistema, mas a permanência de um projeto secular de controle e exploração sob a aparência de atualização permanente.
Esta é uma das conclusões exploradas no artigo “Tecnologias de exploração: colonialismo, cotidiano e relações de trabalho no capitalismo digital”, publicado na Revista Convergência Crítica, no dossiê especial sobre Colonialismo Digital. Os pesquisadores Bruna Rocha (UFBA), Cássio Santana (UFBA) e Paulo Victor Melo (Universidade Nova de Lisboa) buscam desvelar o véu do Vale do Silício para mostrar como a lógica das caravelas foi traduzida em código, alicerçando profundas desigualdades sob uma roupagem de modernidade.

Fonte: reproduçao semperiodismo.wordpress.comSe o colonialismo clássico fincava bandeiras para extrair ouro e produtos agrícolas, o colonialismo digital perfura a subjetividade humana para extrair dados: é o Capitalismo de Vigilância. Não se trata apenas de software, mas de uma “capitalização da vida humana sem limites”.
Os autores detalham que esse fenômeno estrangula o Sul Global em duas frentes. Uma dimensão quantitativa, a partir da disseminação agressiva de dispositivos e aplicativos que criam uma dependência para o acesso ao trabalho, à saúde e ao convívio social, garantindo que o fluxo contínuo de extração de dados. Mas também haveria uma dimensão qualitativa, já que as tecnologias não apenas coletam, mas também reorganizam a realidade, complexificando diferenças sociais, culturais e raciais. É o que Couldy & Mejias chama de data relations em seu livro Costs of Connection (2019).
A tecnologia é vendida como uma régua objetiva e justa. Contudo, Rocha, Santana e Melo ressaltam, citando Aimé Césaire, que “ninguém coloniza inocentemente”. O chamado “solucionismo tecnológico” seria a grande mentira da nossa era: a crença de que algoritmos resolverão mazelas sociais que, na verdade, ajudam a aprofundar.
O conceito de racismo algorítmico, proposto por Tarcízio Silva, é citado pelos autores. Ele opera por meio de uma “dupla opacidade”: o segredo comercial que esconde a lógica das máquinas e a invisibilização da raça como categoria estruturante. Sob o capô do código, preconceitos históricos são automatizados.
Mas esses processos e lógicas não estariam concernidos apenas nos códigos, eles também estão emaranhados em toda a infraestrutura. A “nuvem” não é etérea, ela pode ser comparada a uma mina submersa no solo congolês, banhada com a água amazônica. A elegância dos iPhones contrasta com o horror da extração do minério coltan (muito necessário para as baterias) na República Democrática do Congo. Enquanto o país detém 75% das reservas desse mineral, apenas 23% da sua população acessa internet banda larga. O “custo da conexão” é literalmente de sangue: a International Rights Advocates acusa as big techs de lucrarem com a exploração de trabalho infantil na África para que o Norte Global possa deslizar o dedo nas telas dos smartphones.
Na Amazônia, a Mina de Pitinga, localizada em Presidente Figueiredo, cerca de 300km de Manaus, é uma das maiores jazidas de estanho do mundo. De lá se extrai quase a metade do tântalo produzido no Brasil. O paradoxo é cruel: enquanto o território é pilhado para fabricar a tecnologia, seus habitantes vivem no deserto digital, tornando-se dependentes de empresas como a Starlink para ter o mínimo de conectividade.
Mas não é só sobre desigualdade. A Mineração Taboca, empresa que opera a Mina de Pitinga, é acusada pela poluição e contaminação rio Alalaú por metais pesados. Isso prejudica diretamente os indígenas da Reserva Waimiri-Atroari. Eles denunciam há décadas a mortandade de peixes e o adoecimento da comunidade.
O capitalismo digital também teria sequestrado o tempo social de convívio, já que todo tempo é voltado para a produção constante, já que tudo pode ser conteúdo para ser compartilhado e avaliado por likes, ou para viralizar nas redes sociais. A compreensão do tempo, segundo Couldry e Hepp (2016), citado pelos autores, está intimamente ligada às experiências vividas por meio de suas relações sociais. Na medida que essas relações estão cada vez mais mediadas pelas plataformas, elas ficam concentradas nos seus jardins murados das big techs.
Somado a isso, Johanna Monagreda – citado no artigo – alerta para riscos que dilaceram a população negra: perda de privacidade, mercantilização da pobreza, automação do racismo, perfilamento criminal, vigilância excessiva, impacto na subjetividade e o apagamento do caráter político das lutas sociais.
Nesse cenário, as fábricas tradicionais deram lugar a “usinas digitais”. Muniz Sodré, outro autor citado no artigo, descreve a imaterialização das forças produtivas: o trabalhador não é apenas vigiado, mas também “normalizado” por métricas implacáveis de desempenho. A liberdade prometida pelo “empreendedorismo” é, na verdade, um chicote algorítmico.
Dados do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) expõem a ferida racial da uberização no Brasil. Grande parte dos trabalhadores de transporte por aplicativo,, são precarizados, trabalhando por longas jornadas e aos finais de semana. Principalmente os trabalhadores que entregam comida sequer possuem o ensino fundamental, refletindo uma vida de direitos negados.
A análise mais provocativa de Rocha, Santana e Melo recai sobre o ambiente doméstico. Historicamente, o trabalho de cuidado no Brasil é o pilar da divisão sexual e racial do trabalho, delegado a mulheres negras. A chegada das assistentes virtuais não rompe com essa hierarquia, mas a automatiza. Ao dar vozes femininas e submissas a dispositivos como a Alexa, o mercado evita discutir a real redistribuição das tarefas domésticas. O “fardo” é transferido para um software, preservando os privilégios de quem sempre delegou o cuidado.
“A mulher escravizada foi substituída por uma empregada precarizada, que foi substituída por um robô com voz feminina; e quem nunca quis se implicar com os trabalhos de reprodução da vida, seguirá usufruindo dos benefícios históricos de sua posição de privilégio.”
Mas haveria saídas para um futuro implacável? Os autores se posicionam em um espectro de resistência para afirmar que o colonialismo digital não é um destino inevitável, mas um sistema de escolhas. Para combatê-lo, seria necessário perfurar a “dupla opacidade”: entender como os algoritmos funcionam e denunciar como eles invisibilizam o racismo estrutural.
As conclusões dos autores apontam para uma urgência: alcançar a soberania popular tecnológica. Não basta o Sul Global ser usuário de ferramentas alheias mas é necessário que territórios e grupos racializados produzam suas próprias tecnologias. A justiça racial no século XXI exige que a inovação deixe de ser um instrumento de extração e se torne uma ferramenta de libertação, devolvendo às comunidades o controle sobre seu tempo, seus dados e suas próprias vidas, concluem os autores.
O estudo de Rocha, Santana e Melo funciona como um grande apanhado de dados e autores críticos ao sistema colonial digitalizado. O trabalho se encaixa no eixo de pesquisa Capitalismo de Vigilância a partir do Sul Global da pesquisa do OPlanoB, que trata das assimetrias de poder e das resistências evidenciadas a partir do Sul Global. Esse estudo específico, inclusive, traz algo recorrente em diversas outras pesquisas: a questão ambiental e sua relação sinérgica com a expansão do Capitalismo de Vigilância e das IAs. Além disso, discute a necessidade de uma saída por meio da soberania digital, como forma de enfrentamento da lógica neocolonial.
Para ler o artigo: https://doi.org/10.22409/rcc.v1i21.64470

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).
