A ascensão das IAs generativas revelou profundas assimetrias entre Norte e Sul. Enquanto os países mais desenvolvidos concentram capital e infraestrutura, os países da periferia servem como consumidores, fornecedores de recursos e de mão de obra barata.
Mas, longe de ser um ator passivo, o Sul Global possui uma rica história de ativismo, inovação e uma cultura de apropriação. Essas tradições inspiram práticas críticas que buscam remodelar a IA para atender a contextos locais e promover a justiça social, mesmo dentro dos limites impostos pelas big techs. É a capacidade de hackear o que já está pronto, de produzir gambiarras a seu favor.

Imagem gerada por inteligência artificial generativa utilizando palavras-chave: IA, soberania, sul global, alternativas e população local Pesquisadores destacaram algumas dessas iniciativas e as compilaram no artigo “Lessons From the Margins: Contextualizing, Reimagining, and Hacking Generative AI in the Global South”, publicado no Harvard Data Science Review recentemente. Andrés Domínguez Hernández, membro do Instituto Alan Turing, de Londres, Diana Mosquera e Francisco Gallegos, ambos da ONG Diversa, do Equador, mesclam suas atividades de pesquisa e ativismo para compreender como resistir às ondas hegemônicas do Vale do Silício.
Algumas iniciativas locais estão surgindo para descolonizar a IA, preservar línguas indígenas, resolver problemas urgentes e combater a violência de gênero.
O ecossistema de código aberto tem sido um catalisador crucial, permitindo espaços de autonomia e experimentação. No entanto, há desafios estruturais que precisam ser superados, segundo os autores.
Seria preciso fortalecer espaços de inovação locais e participativos, estabelecer mecanismos globais de justiça trabalhista, incentivar práticas sustentáveis de IA, inovar em políticas públicas e promover a capacitação por meio do acesso aberto. Nada é simples, mas já há exemplos de que outro futuro é possível.
O trabalho aborda uma miríade de iniciativas espalhadas pelo planeta, mostrando um mapa instigante que tenta explorar os modelos de linguagem por outras perspectivas e com objetivos diferentes dos perseguidos pelas big techs.
O projeto Feminist AI Research Network (f<A+i>r) atua na América Latina, Sudeste Asiático, Oriente Médio e norte da África, promovendo pesquisa e prototipagem de IA feminista por meio de hubs regionais, abordando exclusões históricas e melhorando a qualidade de vida de comunidades marginalizadas.
O Jacaranda Health, no Quênia, utiliza um chatbot de IA para fornecer aconselhamento sobre saúde materna via SMS em línguas locais como suaíli e sheng, contornando a ausência de dialetos marginalizados pelas big techs. Esse sistema foi feito em parceria com parteiras e mães quenianas para garantir que as orientações estejam alinhadas às questões socioculturais locais.
No Chile, o SofiaChat, foi projetado e alimentado com uma abordagem feminista visando combater a violência online contra mulheres e pessoas LGBTQI+. A ferramenta prioriza a privacidade e suas respostas são programadas para serem inclusivas e não extrativistas.
Na Índia, a Digital Green usa IA generativa para criar consultorias agrícolas em línguas regionais como odia e telugu. O conteúdo é distribuído por meio de mensagens de voz e vídeos adaptados aos níveis de alfabetização dos pequenos agricultores, que podem interagir e refinar as recomendações.
Além disso, há iniciativas que usam IA para preservar e promover línguas indígenas com poucos recursos. A ideia não é ser uma forma incremental para preencher lacunas de dados dos grandes produtores de modelos, mas criar formas de autonomia digital para públicos determinados. Os autores citam o Masakhane, na África, e o AI4Bharat, na Índia, como exemplos dessa abordagem.
Como alertam os pesquisadores, não se trata de uma lista exaustiva, nem que esses sejam os únicos projetos, mas todos merecem atenção por inverterem os polos do uso da IA, focando nas necessidades locais e em lógicas menos extrativistas.
“Ao resistir, contextualizar e hackear a IA de última geração, as comunidades estão abordando desafios locais e, ao mesmo tempo, oferecem contribuições cruciais para o debate global sobre o desenvolvimento ético e justo da IA”, afirmam os autores.
A discussão sobre a criação de IAs soberanas, controladas nacionalmente ou localmente, tem ganhado força. No entanto, essas iniciativas podem apresentar contradições, como o exemplo da Indonésia que, embora supostamente “soberano”, depende de modelos da Meta e hardware da NVIDIA. Há também o risco de replicar as arquiteturas de alto consumo de recursos das big techs, perpetuando os mesmos problemas ecológicos.
Esses riscos dependem muito das condições locais e do difícil jogo político e econômico entre os grandes atores globais. No Brasil, por exemplo, embora haja uma discussão sobre a soberania digital, iniciado a partir da Rede pela Soberania Digital, o governo federal implementou uma política controversa incentivando a instalação de data centers, o Redata.
Parece ser imprescindível olhar o Sul Global não só como o espaço de exploração, relegado a um papel secundário na “revolução da IA”, mas também como novo ator que, a partir de seu histórico de resistências e criatividade, pode fornecer novos caminhos para o desenvolvimento futuro dessas tecnologias, com mais justiça social e mais inclusão.
Este enquadramento de estudos sobre soberania digital e IA alternativas se encaixa no eixo de pesquisa que o OplanoB classifica como “capitalismo de vigilância pelo Sul Global”, o qual analisa resistências e iniciativas que visam desestabilizar as relações de poder e colonialidade com o Norte.
Para ler o artigo: https://doi.org/10.1162/99608f92.30a2934f

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).
