Sheikh Jarrah é um bairro da Jerusalém Oriental simbolicamente importante para os palestinos. Abriga a Mesquita de Al-Aqsa, local sagrado para o islamismo, além de outros monumentos importantes para o cristianismo e o judaísmo. Em maio de 2021, houve conflitos entre os judeus assentados e os residentes palestinos, que catalisaram protestos e atenção internacional sobre o assentamento. Plataformas de redes sociais foram utilizadas para reverberar o descontentamento palestino por meio de textos, fotos e vídeos. Foi quando as suspeitas de censura política surgiram.

Imagem gerada por inteligência artificial generativa utilizando palavras-chave: palestina, redes sociais, vigilância, política, censura A controvérsia local não era meramente imobiliária. Sheikh Jarrah é uma das áreas mais empobrecidas de Jerusalém e há um conflito constante desde 1967, em virtude da Guerra dos Seis Dias e do controle militar de Israel nos territórios ocupados da Palestina. E a cobertura sobre o conflito de 2021, feita por jornalistas, ativistas, influenciadores e usuários, por meio de redes como Facebook, Twitter, YouTube, Instagram e TikTok, serviu para disseminar imagens e narrativas que retratavam o conflito.
No entanto, os usuários perceberam indícios de censura a partir de mecanismos tecnológicos opacos de moderação de conteúdo. A utilização de certos termos e hashtags levava, de forma aparentemente automática, à suspensão ou limitação de contas ou perfis.
É o que conta o artigo de Norah Abokhodair, pesquisadora independente, com formação na área da computação, em coautoria com Yarden Skop, Sarah Rüller, Konstantin Aal, ambos da Universidade de Siegen, e Houda Elmimouni, da Universidade de Indiana Bloomington. A pesquisa compreendeu entrevistas estruturadas e questionários com 201 usuários que enfrentaram algum tipo de moderação de conteúdo com o objetivo de compreender como eles perceberam esses sistemas durante seu uso cotidiano. O trabalho contou com recrutamento entre usuários das próprias redes, mas também se valeu de técnicas como bola de neve para mapear atores-chave, principalmente entre ativistas e influenciadores.
O artigo foi publicado na First Monday, importante revista acadêmica que publica artigos revisados por pares desde 1996. Os autores têm suas origens diversas (Israel, Arábia Saudita, Marrocos e Alemanha) além de também possuírem várias crenças religiosas, o que, na opinião deles, enriquece a análise e ajuda a mitigar potenciais vieses.
As descobertas revelam desde técnicas como shadow banning (exclusão ou suspensão a partir de certos termos utilizados nos textos ou legendas),rebaixamento de alcance e suspensão temporárias de contas. A falta de transparência foi um dos fatores mais citados, ou seja, a incompreensão do que levava à penalização dos usuários. O problema foi compreendido como parte dos danos algorítmicos da moderação automatizada de conteúdo. Algumas técnicas são de difícil comprovação (como o rebaixamento de alcance), mas foram percebidas a partir de experimentos, como a substituição de alguns caracteres em determinadas palavras (como em palestina ou freepalestine) ou a comparação com postagens semelhantes, realizadas em períodos similares, que não tratavam sobre o assunto em questão.
A pesquisa ilustra um cenário complexo de moderação de conteúdo, impactando notavelmente postagens sobre a Palestina e frequentemente diferindo por idioma e perspectiva política. A pesquisa demonstra que há, no geral, indícios de que as plataformas removem menos conteúdos favoráveis às políticas de Israel, se comparados às críticas vindas de palestinos.
Considera-se que o baixo número de revisores em idioma árabe acaba por deixar a maior parte da moderação ser realizada por métodos automatizados. Uma reportagem da CNN, do mesmo ano em que a pesquisa foi realizada, destaca essa dificuldade para o Facebook.
Os achados de pesquisa dos autores revelam que linguagem específica, tags de localização e imagens servem como gatilhos para moderação de conteúdo em plataformas de mídia social. Contudo, há diferenças entre elas – verificou-se uma menor incidência no TikTok no caso específico estudado.
O artigo deixa claro que a pesquisa não abrange os acontecimentos que ocorreram depois dos conflitos de 2023.
Capitalismo de Vigilância no Sul
Este estudo se enquadra na categoria “Capitalismo de Vigilância no Sul Global” da pesquisação do OPlanoB (www.oplanob.com), que se dedica a compreender a forma de incorporação e desenvolvimento do fenômeno na periferia do capitalismo.
Para ler o artigo: https://firstmonday.org/ojs/index.php/fm/article/view/13620
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Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, financiado pela Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade e realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo
