Cultura livre e a economia solidária podem ajudar a redefinir a tecnologia na América Latina

por Fabricio Solagna em 16 de setembro de 2026, Comentários desativados em Cultura livre e a economia solidária podem ajudar a redefinir a tecnologia na América Latina

A infraestrutura invisível das big techs, que nos permite enviar mensagens instantâneas, armazenar fotos e arquivos, não é neutra. Ela é um dos motores do capitalismo de plataforma, um modelo que transforma a interação social em matéria-prima para a vigilância e a acumulação de capital no Norte Global.

Surge, assim, a urgência de trilhar caminhos que reequilibrem relações de poder. Uma luta que, diga-se de passagem, não é exatamente nova, se pensarmos que o movimento Software Livre nasceu com esse intuito na década de 1980. Porém, atualmente, uma necessidade cada vez mais concreta.

Fonte: New Internacionalist - https://newint.org/

Uma pesquisa propõe a fusão dos pilares éticos e práticos da cultura livre e da economia solidária como resposta a essa realidade de exploração pelo capitalismo de vigilância. O estudo, intitulado ” Beyond platform capitalism: Digital solidarity economy and free culture networks in Argentina and Brazil”, mergulha em realidades concretas. Publicado no periódico Internet Policy Review, o artigo é assinado por Leonardo Foletto e Daniel Santini, ambos vinculados à Universidade de São Paulo (USP) e com longa trajetória na análise da tecnopolítica e dos bens comuns.

Foletto e Santini não se limitam à teoria. Eles usam uma metodologia de estudo de casos para dar voz aos protagonistas de cooperativas tecnológicas. Além disso, realizam entrevistas, análise de documentos e observação participante. A pesquisa investiga como alguns coletivos operam para transformar a tecnologia de um instrumento de precarização em uma ferramenta de soberania compartilhada.

O estudo demonstra que, ao contrário do solucionismo tecnológico do Vale do Silício, há exemplos em que o desenvolvimento tecnológico está sendo reprogramado para servir à emancipação coletiva e à sustentabilidade social. São experiências pontuais e promissoras, que podem indicar caminhos em meio à imensidão das big techs.

A convergência entre cultura livre e economia solidária

O conceito de cultura livre expandiu as liberdades do código de software para todo o conhecimento humano. Inspirado por nomes como Lawrence Lessig e Yochai Benkler, o movimento defende que a produção de conhecimento por pares (commons-based peer production) como um bem comum não rival (aquele que não se esgota com seu uso).

Quando essa visão encontra a economia solidária, que propõe a propriedade democrática dos meios de produção, o resultado é uma antítese radical ao capitalismo de plataforma. Enquanto plataformas como Meta e Google buscam cercar o conhecimento para gerar escassez artificial e lucro, a convergência entre cultura livre e economia solidária aposta na abundância compartilhada.

A reflexão proposta pelos autores aponta que a colaboração e o compartilhamento são os únicos mecanismos capazes de interromper a lógica do capital, transformando o “fazer tecnológico” em um ato de cuidado comunitário.

A aproximação da economia solidária com a perspectiva de resistência das tecnologias livres não é algo recente. Nas primeiras edições do Fórum Internacional de Software Livre (FISL), há mais de 20 anos, ocorreram palestras, encontros e debates sobre a intersecção entre os dois movimentos.

As experiências: Código Libre, EITA e a Alternativa Laboral Trans

A pesquisa de Foletto e Santini detalha três iniciativas que demonstram que há alternativas ao Vale do Silício, de forma profissional, desafiando a noção de que as cooperativas seriam amadoras.

A EITA (Brasil) é uma cooperativa fundada em 2011 que trabalha com soluções voltadas aos movimentos sociais. O nome da cooperativa é uma sigla para Cooperativa de Trabalho Educação, Informação e Tecnologia para Autogestão. Longe de ser um grupo tecnicamente limitado, domina uma série de soluções em web e de aplicativos móveis, que integram gestão de arquivos, comunicação instantânea, chat e softwares de organização. Eles provam que é possível manter a competência técnica de alto nível em uma estrutura de autogestão, onde a valorização equitativa do trabalho é o padrão.

Diversos membros da cooperativa, incluindo Pedro Jatobá e Frederico Guimarães, participaram de projetos como Pontos de Cultura, que se baseavam em princípios da cultura livre, fundamentais para o panorama tecnológico brasileiro mais amplo durante esse período.

Os Pontos de Cultura integra uma parte de uma política pública lançada pelo Ministro da Cultura Gilberto Gil, no primeiro mandato do Governo Lula. São projetos criados e geridos por comunidades ou organizações da sociedade civil que adquiriram um caráter de movimento nacional. Foram e são apoiados governamentalmente através do programa Cultura Viva. Atualmente são mais de 2 mil pontos espalhados por todo território nacional. Uma parte desses projetos adotou e expandiu experiências na área da cultura digital que, na maior parte dos casos, adotavam softwares livres e experimentações entre cultura e arte através da Internet.

A experiência do Código Libre (Argentina) surgiu em 2013, a partir de uma incubadora da Universidade Nacional de Quilmes. É composta por profissionais que dedicam todo o seu tempo ao cooperativismo e se tornou uma referência. A Código Libre utiliza ferramentas como Nextcloud para documentos, Jitsi para videoconferências e Kimai para gestão de tempo, tudo hospedado em servidores próprios. Um de seus projetos principais é a plataforma Caracoles y Hormigas, que fortalece circuitos de comercialização social.

O terceiro projeto citado pelos autores do estudo é a Alternativa Laboral Trans – ALT (Argentina). Ela foi fundada em 2020 e introduz a diversidade como parte da tecnologia. É a experiência mais jovem das três estudadas, mas muito significativa por estar focada na inclusão de pessoas trans. A cooperativa utiliza e fornece soluções em WordPress, Node e React. Um detalhe crucial é o desafio de trabalhar com profissionais iniciantes. A exclusão histórica dificulta que essa população tenha acesso ao treinamento sênior.

Para a ALT, a tecnologia é um meio de reparação. Um exemplo é o South Feminist Knowledge Hub, plataforma que cataloga recursos de feministas do Sul Global.

Elena Ficher, presidente da ALT, destaca que as relações de trabalho mudam neses espaços:

Muda completamente a perspectiva, especialmente para aqueles de nós que vêm de empregos tradicionais top-down, onde as decisões são tomadas sem qualquer consulta ou simplesmente. Em uma estrutura cooperativa, o processo é invertido: as decisões são tomadas coletivamente, buscando o consenso e colocando o bem-estar do grupo no centro.”

Soberania digital e interseccionalidade

A pesquisa avança ao tratar da politicização das tecnologias. Decidir onde hospedar dados não é uma escolha meramente técnica, mas um posicionamento contra a dependência colonial.

A EITA, por exemplo, hospeda seus dados na CanTrust, uma cooperativa canadense que compartilha seus valorese se recusa a alimentar os servidores de gigantes que praticam mineração de dados.

No Brasil, parcerias com a Rede Mocambos e a cooperativa de hospedagem PopSolutions reforçam essa infraestrutura autônoma. Um conceito central que emerge do estudo é o das Worker-Owned Intersectional Platforms (WOIP), ou Plataformas Interseccionais de Propriedade dos Trabalhadores.

Esse projeto propõe que a tecnologia deve ser construída com cuidado, autonomia e uma lente interseccional, desafiando a narrativa de que somente o bilionário investimento do Vale do Silício pode produzir inovação. Cecilia Muñoz Cancela, da Código Libre, enfatiza que a diversidade de gênero e raça aprimora a tecnologia ao eliminar vieses algorítmicos opressores.

Nesse ponto, surge um debate sofisticado sobre a soberania digital. Enquanto governos muitas vezes a veem como “fronteiras nacionais”, Frederico Guimarães, da cooperativa EITA, alerta que pode haver nuances autoritárias ou resultar apenas em órgãos públicos tornando-se “gestores de contratos” para big techs.

As cooperativas preferem o termo Autonomia Coletiva. Para elas, a soberania não deve ser erguida com muros digitais nacionais, mas com redes de intercooperação internacional. É a soberania de quem usa e constrói a ferramenta, baseada na premissa de “Public Code, Public Money” (código público, dinheiro público, em tradução literal), garantindo que recursos estatais financiem o que é comum, e não o que é proprietário.

O desafios do “Open Washing”

O estudo não ignora as tensões impostas pelo avanço da IA generativa. Os autores alertam para o fato de que as big techs estão sequestrando o “comum digital” para treinar seus modelos lucrativos.

A Meta, que utilizou 82 terabytes de livros piratas e o conteúdo da Wikipedia para treinar o sistema LLaMA, serve de exemplo de como o trabalho coletivo é capturado sem consentimento ou reciprocidade. Além disso, há o perigo do “Open Washing” quando empresas como OpenAI e Microsoft usam o rótulo “aberto” como estratégia de marketing, enquanto mantêm o controle real sobre os dados e a infraestrutura.

Diante disso, a pesquisa aponta que a cultura livre precisa evoluir para o século XXI. Uma solução discutida é a adoção de licenças inovadoras, como a Peer Production License (Copyfair).

Diferente do Copyleft tradicional, que permite qualquer uso comercial (facilitando a apropriação por gigantes), a Copyfair estabelece uma reciprocidade: o conhecimento é livre para outras cooperativas, ONGs e bens comuns, mas entidades comerciais que desejam lucrar sobre ele devem oferecer contrapartidas ou pagamentos.

É uma forma de garantir que o valor gerado pela colaboração permaneça no ecossistema da economia solidária e não seja drenado para o Vale do Silício.


Reprogramando o futuro

A análise das trajetórias da EITA, Código Libre e ALT revela que o caminho para o Sul Global não é a negação da tecnologia, mas a sua reapropriação ética. A fusão entre cultura livre e economia solidária oferece um mapa para sair da dependência tecnológica descrita por Milton Santos.

Os autores Foletto e Santini concluem que a sustentabilidade desse modelo depende de redes robustas de intercooperação. Reprogramar o futuro digital exige substituir a acumulação pela colaboração, a vigilância pelo cuidado e o colonialismo pelo “comunamento” (commoning).

Para que a tecnologia tenha, de fato, um rosto humano, ela deve ser governada por quem a produz, afirmam os autores.


Capitalismo de Vigilância a partir do Sul Global

A pesquisa analisada enquadra-se no debate sobre o Capitalismo de Vigilância e a resistência a ele a partir do Sul Global, propondo infraestruturas autônomas que desafiam a dependência colonial digital. Ao destacar que a tecnologia é um terreno de luta política e territorial, o estudo oferece um mapa para quem deseja construir um futuro digital em que o comum prevaleça sobre o lucro.

Para ler o artigo: https://doi.org/10.14763/2026.1.2061

Lavits

Esta nota faz parte do projeto “Inteligência Artificial e Capitalismo de Vigilância no Sul Global”, realizado pelo Labjor - Unicamp | Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Conta com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência).